Archive for August, 2011
Me diz o que você achou?
Posted by Claudia in Uncategorized on August 18, 2011
Vocês se lembram do mito de Orfeu e Eurídice? Bem resumidamente: eles se casam, Eurídice morre após uma perseguição. Orfeu, desesperado, decide descer ao mundo dos mortos para vê-la, vale-se de sua lira para lá entrar, faz um belo discurso e consegue uma chance de trazê-la dos infernos. Permitem, inusualmente, que ele a traga de volta, com uma condição: ele não podia se virar pra olhar pra ela antes que chegassem à superfície. E assim vão, Orfeu segue andando na frente, Eurídice atrás, ambos a caminho do mundo dos vivos. Mas eis que, depois de muito andar, já quase sob a luz do sol, Orfeu se vira pra dar aquela olhadinha e conferir se Eurídice está ali mesmo e… pluft! : ela começa a ser arrebatada num turbilhão, eles estendem os braços tentando um último abraço, mas só ar é o que retêm. Ele a perde para sempre.
A história do músico trácio (que não termina onde eu parei) é usada como analogia para muitas categorias, depende do interesse. Colocam-no como filósofo em busca de conhecimento, músico que personifica a música e o ritmo das coisas, vidente fundador de ritos dionisíacos, astrólogo e até missionário em terras bárbaras, com uma, digamos, função civilizatória. O momento em que tudo vai pelos ares, no entanto, é o que me chama a atenção. A hora em que Orfeu se vira para, discretamente, conferir que Eurídice estivesse ali – e nisso tudo se perde.
Cogito, ergo sum. A dúvida é meu tema aqui. Nesse mito, quando Orfeu se vira pra dizer “você está aí, ‘né’?”, é nesse ‘né’ que ele perde Eurídice. O problema não é a dúvida – impossível avançar sem ela. O problema é a busca da confirmação do pensar para poder prosseguir, confirmação que, na sua ausência, deixa paralisado. Esse “né” seria a busca da segurança, um ‘olha, eu não estou sozinho, estou?’, literalmente. É muito difícil assumir que, em última instância, nada é sem risco. Estamos apresentando sem ensaio, desenhando sem esboço, como naquele trecho de A insustentável leveza do ser.
De Descartes a Lacan. A cena do questionamento de Orfeu trouxe-me ainda outra imagem: a do analisando no divã, buscando a confirmação do analista para os seus cogitos. No silêncio do analista, que muita gente que já viu algum filme do Woody Allen diz ser o silêncio mais bem pago do universo, reside justamente a angústia de não obter uma confirmação, de não ter um “curtir” pro post colocado. É o silêncio que, de certa forma, lhe diz, olha, talvez agora você esteja sozinho, sim. E é assim que você vai se ligar aos outros, caso interesse.
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De Lacan a mim: tenho a palavra silêncio tatuada, em farsi, e muita gente acha que esse silêncio é um imperativo. Eu digo, não, é substantivo. Nunca tinha pensado, porém, que, nessa frase, substantivo vira um predicativo: aquele que evidencia a substância, a essência.
Londres, ainda e ainda.
Posted by Claudia in Uncategorized on August 16, 2011
O caos da ordem
BOAVENTURA DE SOUSA SANTO
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Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de “Para uma Revolução Democrática da Justiça” (Cortez, 2007).
Folha de S.Paulo, 16/08
Ainda, Londres
Posted by Claudia in Uncategorized on August 16, 2011
VLADIMIR SAFATLE ( Folha de S.Paulo, 16/08)
Colapso moral
Aqueles que se veem como excluídos da sociedade não têm razão alguma para obedecer às suas normas.
Eis uma colocação trivial que qualquer habitante de metrópoles brasileiras aceitaria. Conhecemos bem tal situação social onde a exclusão e a falta de perspectiva gera a descrença (no melhor cenário) ou a violência (no pior) contra o império das normas sociais.
Muitos gostariam de chamar isso de “sociologismo vulgar”, como se fosse questão de afirmar que onde há pauperização sempre haverá crime.
Talvez seja o caso de simplesmente dizer que a pauperização e o sentimento de ter sido deixado de lado pelo Estado gera, de maneira forte, a desagregação do laço social.
Quando não há nada que sirva de contrapeso a tal processo, é fácil começar a ver carros queimados, lojas quebradas e outros atos de vandalismo.
Nesse sentido, há algo de profundamente cômico em ouvir o premiê britânico, David Cameron, afirmar que a Inglaterra está vivendo um “colapso moral” e que devemos colocar os confrontos em Londres e em outras cidades na conta da ausência de valores como “espírito de equipe, decência, dever e disciplina”.
Sim, as escolas e as famílias não ensinam mais esses grandes valores, mas, segundo o primeiro-ministro, em seu papel de último esteio moral da ilha, “desencorajam o trabalho” e fornecem “direitos sem responsabilidade”. Por muito pouco, não fomos brindados com a ideia inovadora de que as altas taxas de desemprego eram fruto da “preguiça”.
Alguém deveria ter dito a Cameron que ele não é exatamente um bom enunciador contra o colapso moral britânico, ainda mais depois de um de seus principais assessores ser pego envolvido no escândalo que expôs as relações incestuosas entre a política britânica e o magnata da mídia Rupert Murdoch.
Da mesma forma, quando seu governo destrói todo o resto de sistema público de educação e de assistência social após ter pago (com o beneplácito de seu partido) a conta de bancos responsáveis pela crise de 2008, há de se perguntar se o colapso moral vem da City ou de Tottenham.
Pelo menos Cameron mostrou o que o pensamento conservador pode nos oferecer hoje: ladainhas morais em vez de ações enérgicas contra os verdadeiros arruaceiros, ou seja, esses que operam no sistema financeiro internacional.
Enquanto isso não ocorrer, jovens roubando lojas de iPads e tênis continuarão dizendo: não aceitaremos estar fora do universo de consumo e sucesso individual que vocês mesmos inventaram. Nós entraremos nele, nem que seja saqueando.
Por isso, antes de cobrar responsabilidades de setores desfavorecidos da população, Cameron deve parar de tentar escapar de suas próprias.
VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.
Melancholia, por Safatle
Posted by Claudia in Uncategorized on August 2, 2011
| Folha, hoje.
VLADIMIR SAFATLE Melancholia Poucos são os cineastas realmente necessários para nossa época. Lars Von Trier é certamente um deles. Talvez alguns de seus filmes estejam entre as melhores reflexões contemporâneas sobre moralidade e seus impasses. |
Procrastinação
Posted by Claudia in Uncategorized on August 1, 2011
Acostumada a passar o tempo depois do almoço, já que já tinha demorado pra me levantar e sair de casa, já que já tinha tomado banho e o cabelo ainda secava, tinha minha tarde de sol. Almoçávamos e, sentados em algum banco de uma praça, ríamos e desdobrávamos filosofias sobre as pombas ou sobre as pessoas que passavam. Olha o shortinho daquele cara levando um pitbull pra passear, Olha aquela pomba tentando chamar a outra que se isolou do grupo, Olha, eu já estou com saudades de você.
Demora para tomarmos alguma decisão realmente importante na vida. Desejamos tanto uma oportunidade e, na hora de validar, não conseguimos fazer outra coisa senão ficar arrumando o salão pra festa, por horas e horas. Há várias maneiras de procrastinar, seja saindo todos os dias, seja trabalhando todas as horas, seja no radicalismo, seja na inércia, não importa. Arrependimentos, então, podem ser muito úteis para gerar a inércia da lamentação por tempo indeterminado.
Costumamos dizer que estamos “procrastinando o dia”. Demorou pra eu perceber que o que procrastinamos, cada vez que evitamos uma decisão, não é a vida. E demorou pra eu perceber que todas essas táticas são banais, embora funcionais. O saber às vezes vira uma maldição. A maldição da múmia, tropeçando na própria faixa. Mas, as coisas mudam. E, pra minha sorte, o som ainda está rolando. Let’s dance.
