Amigas

Quero falar sobre as mulheres. Não de todas, mas de algumas que tenho escutado com certa frequência e com as quais compartilho muitas coisas. Na verdade, acho que esse texto também pode ser útil para alguns homens.

Antes que alguém se identifique, aviso que é um apanhado geral sobre casos de várias amigas, situações que aparecem e lembram igualmente situações pelas quais eu também já passei. É muito impressionante a quantidade de amigas que eu escuto se questionando se estão no caminho “certo” sobre o ser mulher. Amigas já maduras (até pelo tipo de questionamento) que deram um passo além, que estão longe de um clichê de feminilidade e que não precisam demonstrá-la mantendo uma constante de vestimentas ditas femininas ou interesses e comportamentos considerados como tais. Essas mulheres apresentam, da mesma forma, fragilidade, porque isso não é privilégio de algum gênero. No entanto, parece que quando não relacionada a certos modelos, a fragilidade  - que fica associada à feminilidade – não é reconhecida por alguns homens.

Claro que a questão nunca vem só de um lado. O problema parece ser que é mais comum, de alguma forma, os homens comprarem um discurso de que eles devem ser potentes e seguros o tempo todo, e que só há espaço para um dos dois ser assim.  Se ele demonstrar fragilidade, ele mesmo vai-se considerar menos homem. Nisso, quando aparece alguma mulher que lhe desperta o desejo – justamente porque a inteligência também é um afrodisíaco -, mas com o tempo ele percebe que ela não é necessariamente submissa, começa uma sensação de mal-estar, como se aquilo pudesse  tirar-lhe o lugar. E aí se inicia uma confusão sem fim, porque é comum que a mulher, ao perceber que o cara se coloca como dono da verdade, comece justamente a tentar deixar-lhe impotente, como se dissesse, escuta, você quer enganar quem? E o problema é que, em vez de ela (como seres mais evoluídos que somos, hehe) perceber que tal ação masculina na verdade já é resposta a inseguranças que justamente ele não está a fim de ver – e agir de forma a lidar de uma maneira mais natural com a falta e a impotência que cada um de nós carrega -, termina por se sentir também diminuída, a querer escancarar todas as faltas do companheiro. Muitas vezes tentamos nos assemelhar aos homens nos seus piores defeitos, e tornamo-nos potentes acusando a impotência alheia. Vira uma briga de poder sem fim, como se de fato houvesse um objeto em jogo.

É muito muito difícil se relacionar. É muito difícil abrir mão de uma fantasia de consistência e dar ao outro justamente aquilo que me falta: um pouco de amor, um pouco de carinho, um pouco de respeito e compreensão de que as coisas são faltantes dos dois lados.  Dói em mim ver amigas que são lindas, são inteligentes e não estão no senso comum de buscar desesperadamente um casamento ou uma relação que funcione como um tapa-buraco para a castração, acharem-se feias, burras e questionarem-se se deveriam ser diferentes (num sentido ruim), se não deveriam logo se adaptarem àquilo que é esperado pela sociedade. Felizmente, por mais que o desejo de amor e aceitação seja muito forte em cada uma de nós, ele não é suficiente para passar por cima de uma ética e de uma consciência própria que nos faz seguir em frente do jeito que somos: SINGULARES. Não dá pra voltar atrás. E isso é entender, finalmente, que a outra não é mais mulher que eu porque aquele cara babaca disse que ela, sim, é mulher.

Na verdade, a questão pode ser invertida: será que ele só se sente homem ao lado de mulheres com certos traços fixos? Principalmente traços que não ameacem o seu posto de senhor do saber.  Ou ele mesmo se mantém em alguns traços fixos? Ouvi um caso engraçado recentemente de dois homens na Livraria Cultura, conversando sobre uma matéria que afirmava que   90% dos homens  casados trairiam sua esposa com a Ellen Roche. Um deles disse: “poxa,  imagina que a Ellen Roche chegue em você, você vai virar e falar – então, não vai dar, sou casado… claro que não!” Tudo bem, eu concordo que a Ellen Roche é de fato um caso raro, a questão não é um julgamento moral a respeito de que decisão ele tomaria. O fato é que é impressionante o tanto de homens que realmente acreditam que um dia a Ellen Roche chegaria até eles com um convite do tipo! E como isso vira desculpa pra não encarar uma relação – não encarar a si. Muitos homens acham que estar com uma mulher é abrir mão de todas as outras, como se todas as outras estivessem realmente loucas por eles.

Enfim, esse texto é só um desabafo de carinho pra essas minhas amigas que em algum momento perdem a fé no seu próprio trajeto. E pra dizer que uma relação pode não ser uma competição. O relacionamento vem quando você confia, sem medo, a sua falta ao outro, e você tampouco recebe a do seu companheiro  como ameaça, mas como confiança. Quando o outro deixa de ser o culpado por aquilo que você não tem (seja desejo eterno,  potência, etc etc), mas o confidente daquilo que lhe falta. Quando você pode respirar aliviada por sentir o amor como alguma forma de suplência às loucuras do dia a dia.

Amigas, por favor, não ousem mudar. Vocês não são menos mulheres por terem convivido com alguns homens que infelizmente se julgam menos homens.  Homens que também acreditam que exista o homem ideal, o pai da horda. Provavelmente, eles não tiveram uma mãe muito bacana (risos), mas, enfim, falar sobre o sofrimento das mães daria outro texto. E não se igualem nos defeitos, há laços melhores a serem feitos. Vocês são motivos da minha admiração e são muito companheiras nessa árdua jornada em pleno século XXI.

Não percam a fé de serem especiais com a sua singularidade.  Amor vem de amor, já dizia o poeta.

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  1. #1 by Drita on October 3, 2011 - 12:08 am

    Apavorou, Clau! =)

    É isso: quanto mais fora dos “padrões de comportamento feminino”, menores as chances de a mulher ser considerada a sério. E olha que eu nem estou pensando em babacas malcriados e machistas, cujas atitudes despertam outras piores em nós, como a de “escancarar as faltas do companheiro” até que a impotência dele vire a nossa potência. Estou, sim, pensando em “homens de qualidade” (pra usar uma boa expressão que li num mau texto), porque trampo mesmo é tratar de questões envolvendo insegurança, fragilidade, personalidade e feminilidade em relação com caras legais.

    Desencanar de um babaca é fácil, mas também os “homens de qualidade” conformaram sua ordem ideal: o reino imaginário, onde todos os papéis já estão estabelecidos, até mesmo o da princesa imaginária. Aí, sim, sua chamada vira um imbróglio, Clau: como lidar com um Homem que toma atitudes questionáveis, ligadas a sua singularidade como mulher? Depois de se anular e de entrar numa estéril briga de egos, quais são as opções? Tratamento pedagógico? Terapia? Desistência pura e simples? Torcer pra vir um mais pronto, mais corajoso, mais disposto, mais libertário?

    • #2 by Claudia on October 3, 2011 - 2:29 pm

      “Para a ternura ser pontual, é necessário oferecê-la sempre.” Carpinejar . Resumindo, acho que amor é disposição. E acho que disposição é um aprendizado!

      Duro pra gente é achar homem inteligente que não seja neurótico!!! rsrsrs Ou um que já faça bons laços, apesar da neura. Como algumas coisas não mudam, eu acho que a questão é sempre o “apesar de”.

      Beijo, Drita!
      ;)

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