Terças cortazianas.

February 3, 2010

Fato 1. Cheguei a Maceió dia 29, pra ficar uma semana. Levei a biografia da Clarice que 9 entre 10 garotas estão lendo nesse início de 2010. De repente, assim, começo a ler um capítulo. Outro. Tenho contato com enredos do Leste Europeu, já tão distantes pra mim e ao mesmo tempo tão presentes. E eis que a família dela chega da Ucrânia para Maceió. Pensei, que coincidência legal.  Acho. Não sei  mais o que pensei.

Fato 2. Ontem, minha prima e meu amigo queridos voltaram após 2 meses na Europa. Estava vendo as fotos deles e vi uma cidade que me pareceu linda: Bruges. Adoro cidades medievais. Ia escolher uma foto pra pôr na minha página do FB. Fui, refui, vi outras fotos, muitos países. Volto a Bruges. Escolho uma, linda. Penso, quero ir a esse lugar. Penso, quero uma frase pra jogar com essa foto. [Divirto-me brincando com frases e fotos à meia-noite. Antigamente dormia mais cedo.]

e 1/2. Lembrei-me, até então propositadamente, de um livro de Osman Lins, lá embaixo, no fundo de uma caixa que contém as coisas-da-Letras-que-um-dia-eu-reverei-pois-pareciam-legais, caixa que ainda não tive tempo de arrumar pós-mudança. Até tive. Enfim. Lembrei-me de uma brincadeira de amigos no FB, de abrir um livro na página 56 e publicar uma frase da página. Acho, então, o Marinheiro de Primeira Viagem, no fundo da caixa. É um livro em que Osman descreve várias cidades européias, como um diário de bordo bem peculiar. É lindo, nada para turistas [Vou tentar fazer o meu].  Então, foto escolhida, livro na mão. Abro na página 56 e a cidade que ele descreve é Bruges. Assim estava, Bruges, no título, em itálico. Bruges, como na foto. Meu ombro esquenta.

Uma ficção na vida ou uma vida na ficção? O insólito não me parece só o que é nosso.

[Ai, queria que não parasse!]

Persona non grata

January 23, 2010

Não é que alguém seja o dono da verdade. Eu acho é que a verdade não tem dono.

Essa frase me surgiu do nada esses dias, e quando as coisas surgem do nada eu acho que devemos prestar atenção. O nada é um lugar interessante, ele traz expectativas.  Nonada, se você usar uma lanterna e entrar, podem vir muitos nadinhas, que trazem outras lanterninhas. Alumbramentos, epifanias, insights, intuições, cada um chama de um jeito. E por que duvidamos? Por que achamos sempre que a verdade está no outro e que essas intuições só terão valor se esse mesmo outro – algum carrasco muito bem escolhido -  disser que sim, que elas têm valor?  Acho que a minha questão é: até onde vai o poder dos ditos?

A regra do jogo é achar que a verdade tem dono. E caçar este dono, que se esconde melhor que uma raposa. Depois, descobrir que o outro também está caçando – e achando até que você, sim, tem razão. A complicação começa. Quem vai ceder, quem vai receber? E aí, outra complicação: se eu receber, admito que a minha verdade era errada? E se eu der e o outro negar, como manter a diplomacia do desejo?

Tenho a impressão de que a busca pelo saber é sempre por um saber-se.  O problema – e a resposta -  é que este saber vem pelo outro. E dói. E é bom.  A gente vai, faz o castelo, ergue todas as muralhas, está tudo bem. Eis que alguém vem e diz que falta uma ponte de acesso, dialética da solidão. A linguagem pode nos enclausurar, pode nos aproximar: é a distância entre o louco e o poeta.

Como não deixar as pecinhas do Tetris chegar ao limite da tela? Como dizer, sim, eu te respeito, eu acho bonita a sua verdade, mas não fique triste se ela não for a mesma que a minha. Podemos conversar. Eu não acredito em um amor incondicional – e é por isso que posso te ver. Cogito, ergo sum. A dúvida é a irrefutável certeza de um sujeito pensante.

Mas, minha grande questão, como explicar o próprio silêncio para outra pessoa? Sinto-o no meu corpo, e, não, a linguagem não o alcança.

……………………………………………………………………………………………………..  Dancemos.

Hanami- Cerejeiras em flor

January 11, 2010

(Se você não quiser saber quem morre, essas coisas, não leia essa crítica. Mas o filme não se sustenta só pelos fatos)

Fui ontem assistir ao filme alemão Hanami, cerejeiras em flor, belíssimo filme da diretora Doris Dörrie. O filme é ambientado inicialmente na Alemanha e, depois, no Japão. Admiravelmente (ou não), li críticas e sinopses que  de maneira alguma  fazem jus ao filme. No mínimo, superficiais.  Li que era um filme sobre o amor de uma mulher, e resumiam-no a isso. Li que era um filme sobre a efemeridade da vida, e resumiam-no a isso. Li que a diretora se apaixonou pelo filme e o filme se perdeu, mas vale pelas belas fotografias. O mais engraçado é que as críticas, de forma metalinguística, refletem o que, a meu ver, é o tema  do filme.

O filme retrata, além de todos esses temas citados acima, um sofrido encontro do Ocidente com o Oriente. O casal Trudi (de ascendência japonesa, bela, bela) e Rudi vive no interior da Alemanha e decide visitar os filhos em Berlim, após Trudi descobrir que o marido tem uma doença terminal. Trudi queria conhecer o Monte Fuji, mas o marido diz que é só mais uma montanha. Na Alemanha, o abismo criado entre os filhos e os pais já trata da distância entre o mundo oriental e ocidental, e, enquanto Trudi sofre com isso,  Rudi ainda está no meio do caminho, tentando negar a diferença ou achando que ela não importa. A grande questão dos dois filhos que moram em Berlin é como os pais decidem visitá-los sem avisar, como a simples presença dos pais é enlouquecedora e como eles não têm tempo para os progenitores.

O ponto de virada no filme é quando Trudi morre [Está no trailer e eu preciso desse elemento pra encadear o restante].Os filhos mal conseguem tempo para ir ao enterro.

A segunda parte do filme se ambienta no Japão, onde mora um terceiro filho do casal, primogênito, salvo engano. Rudi vai para lá em busca do filho e de estar mais perto da esposa, que tanto queria conhecer o Fuji. É no Japão que Rudi sofre uma profunda transformação, e sente pela primeira vez o abismo entre os mundos. O mundo do pai e dos filhos, do Oriente e do Ocidente, dos vivos e dos mortos. A efemeridade da vida, retratada nas cerejeiras em flor, desperta na alma de Rudi, e somente lá ele consegue  (re)encontrar  a esposa. Encontro por meio da dança  Butô, encontro por meio do silêncio, das sombras, encontro que nunca houve em vida.

O filme pode falar de amor, de efemeridade, de conflitos, sim, mas não se resume a nenhum desses elementos. O filme trata, principalmente, da distância da solidão e da falta de comunicação entre mundos – e do resgate desta, ainda que tardio.

Mais um pouco.

December 30, 2009

Então, é estranho. Tenho essa mania de começar a história já começada, como se fosse íntima. Funciona, pois depois você se sentirá seguro e achará que há intimidade de verdade. Docemente, eu finjo, finjo até que contei o que não esperava contar, como se tivesse sido surpreendida. E dá certo, às vezes. São as falhas que nos unem, não os acertos. Eu sei que você se delicia ao achar que sabe de mim, que me fez revelar um segredo. E deixo. As falhas me interessam, Não as minhas. Eu, eu simplesmente vou, assim, sempre corrida, sempre fugida. Tínhamos um acordo. Falar sobre o futuro seria um erro, nos envergonharíamos de nossa frágil condição. Não. Só dava pra eu me defender. Fingir-me surpresa. E depois sair,  Não porque não gostasse de você. Nem porque gostasse. Nem todas as histórias têm enredo. Nem todas as línguas são bem estruturadas. As palavras se ligam por um equívoco de sentido, São a sua condição. Você inventa a corda, eu invento o pescoço.

E depois de toda a condição estabelecida, a gente podia continuar. Assim, Aos poucos. Naquele dia, as gotas de chuva contornavam o guarda-chuva e molhavam a minha bolsa. Não cabiam nós dois, eu disse, mas você achava que cabia. Não cabia. Eu nunca gostei dessas chuvas de verão, que ficam bonitas nos filmes mas fazem a gente carregar desconfortáveis  guarda-chuvas na bolsa que era pra estar leve. E elas chegam, assim, nos obrigando. Você me pediu um cigarro e fez algum elogio sobre os meus pés, um pouco antes. Depois, já estávamos na porta do metrô, havíamos subido a Augusta e minha bolsa molhava, porque só as mulheres carregam guarda-chuvas. Só as mulheres carregam muitas coisas, Eu tentava explicar. Acho agora que você pensou que eu iria mesmo pra sua casa, só porque tinha ido até ali. Eu cheguei a demonstrar isso? Não me lembro.  Mas se demonstrei era pra você querer, e depois… não sei depois. As mulheres carregam muitas coisas. Só que os malditos guarda-chuvas nunca nos guardam. Nunca.

[ Augusta é um nome engraçado, não acha? Dancei, dancei e dancei, a noite inteira. É isso que fazemos quando queremos nos despedir, Quando queremos começar. O dia, a noite, já não sabia. As luzes piscantes nos confundem. O cheiro e as bebidas, o suor também. Por isso bebemos tanto? Onde fica o banheiro? Nem bebi tanto. Quando elas piscam,  há fragmentos de pessoas. Imagine se dançássemos no claro, quão ridículo seria. Você  ri? Já é tarde, e ainda chove. Lá dentro não parecia chover,  todos se molhavam de maneira igual. Queria ir pra sua casa, é tarde. As luzes nos confundem, mas agora eu realmente iria.]

And the Oscar goes to…

December 23, 2009

Eu não posso encerrar este ano sem escrever um texto sobre o filme Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte. Na época em que todos estavam empolgados com o Anticristo, fui ver este filme brasileiro e tive uma surpresa absurda. Há tempos não via um roteiro brasileiro tão bem feito. Prometi até uma comparação dele com o Anticristo, vi semelhanças e ninguém havia entendido nada. Nem tenho mais vontade de falar do Anticristo comparado a esse filme, mas prometo dizer no fim onde achei que havia uma questão.

Se nada mais der certo reúne personagens que estão em uma situação com a qual nós, moradores de grandes centros urbanos, nos identificamos facilmente. O filme se passa em SP,  Baixo Augusta, e os personagens, ao mesmo tempo em que têm de sobreviver, deparam com a liquidez da própria identidade, que parece sempre escapando por entre os dedos. É um filme que impressiona porque consegue dialogar com uma alegoria, os órfãos de uma nação acostumada ao paternalismo, e as identidades etéreas que resistem a uma massificação.

O filme parece uma tentativa de respiro atual, muito muito bonito. Os personagens questionam, cada um de acordo com seu entorno, a ordem social vigente. “Qual é a lógica do pobre quando ele rouba alguém que rouba alguém que tem mais dinheiro que ele? Ele quer algo que ele não tem. Qual é a lógica do rico que rouba o pobre, se ele já tem? (…) A gente é educado pra não roubar, mas a gente não é educado pra não ser roubado.” A fala de Léo (impressionantemente, Cauã Reymond), jornalista ferrado, sem receber a grana de trabalhos feitos já há algum tempo e sem emprego, e o cérebro pensante do grupo,  parece indicar o caminho do filme, uma eterna e rasa luta de classes. No entanto, de repente Léo está roubando também – e não o rico, mas alguém mais pobre que ele. Não há clichês, não há maniqueísmos. Diria que só consigo definir o filme por negatividades, a identidade se positivando pela diferença, e acho que esta é a síntese maior da minha geração.

Marcin, um/uma traficante, amiga da namorada de Léo, não tem sua identidade sexual definida no filme. A começar pelo nome, de gênero indefinido, não é Márcia, não é Márcio, é Marcin. Como a atriz é Caroline Abras, vou me referir como ela.  A carência traduzida em Marcin, o desejo de estar perto, de ajudar, é fortemente marcado em seu olhar, e ela passa a ser a personagem mais bonita do filme. A falta de identidade sexual definida em um contexto tão indefinido é altamente simbólica. Ana, a namorada de Léo, é anoréxica e tem um filho. Ela é, de longe, a personagem mais sofrida. Não aparece tanto, mas tudo o que é questionado no filme aparece traduzido pro real em seu corpo, anoréxico, que mal se sustenta. Identidade que mal se sustenta. A tentativa não é só de definir um corpo pra geração, pra nação, mas, sobretudo, de constituir um corpo humano que banque essa identidade em meio a uma sociedade que parece ainda extremamente determinista. Léo afirma: “por mais que você ache que existem vários caminhos, não existem”. É um entorno claustrofóbico – e aqui já me lembro do Anticristo -, em que o vazio tem um papel principal como recurso último de uma marca identitária. Vazio do corpo, a negatividade como último suspiro redentor, ou desesperador, da identidade.

A trilha traz, genialmente, Saltimbancos – juntos somos mais fortes – e Bem que se quis – depois de tudo ainda ser feliz-, de Marisa Monte. Todos no mesmo barco, não há o que temer?  O entorno racionalista não explica os desejos do sujeito. Não adianta fazer uma pirâmide, como no Anticristo, e pôr no alto seu maior medo. Não adiantam os manuais psiquiátricos, as camas de Procrusto, que querem deixar o sujeito na medida de sua teoria. Qual é o medo de Marcin? De Ana? De Léo? Do taxista? Da mulher do Anticristo? Talvez seja, entre outros, justamente o medo da perda do desejo, de poder expressá-lo, e ficarem limitados a uma mera sobrevivência. Não há síntese, há um eterno descompasso entre o homem e o mundo, o homem e a sua sociedade, e a sua geração. Esta exprime os anseios, mas nunca vai ter palavra que baste, porque nós não nos bastamos. Solidariedade talvez seja o simples desejo de estar perto.

Set list 2009

December 21, 2009

ROAM if you want to Dancing with myself Sugar, oh, honey, honey Girls who wants boys who like boys to be girls who do boys like they’re girls who do girls, like they’re boys Always should be someone you really love Eu ia te chamar enquanto corria a barca, te chamar For a minute there, I lost myself (and no surprises), Let’s dance, put on your red shoes Money for nothing and chicks for free This is ourselves under pressure, cause love’s such an old fashioned word I just don’t know what to do with myself  Too drunk to fuck And sooo Sally can wait , she knows is too late El cariño que te tengo no lo puedo negar Fa fa fa fa fa fa fa fa fa better Girl, you’ll be a woman soon I need somebody to love So, please, just take me out Now I’ve had the time of my life No I’ve never felt like this before Billy Jean is not my lover Oh baby pleeeease give a little respect Quem samba na beira do mar é sereia Alvorada, lá no morro, que beleza Last night, she said oh, baby, I feel so down Don’t leave me high don’t leave me dry É do tipo cara valente And we don’t care about the young folks (talking only me and you) Cry, baby, cry, She’s old enough to know better That’s what I’m easy oh, oh, oh, oh I’m easy like sunday morning Back in black Meu peito não é de silicone (sou Pagu indignada no palanque) Strangelove, strange higs and strange lows Rebel rebel, you’ve torn your dress Era você de Aracaju ou do Alabama Menina, amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade vai Around the world the trip begins with a KISS.

E fechando com Enya pra poder recomeçar.

Este post é pra todo mundo que foi comigo até o chão em 2009. Feliz 2010!

Dissimulação

December 18, 2009

Voltando de metrô ontem, após algumas aulas fora de casa para justamente estar um pouco fora de casa, encostei na parede do último vagão. De propósito, fiquei de frente para as pessoas, que, por sua vez, ficam de frente para a janela e fingem que você não está de frente para elas. Nas grandes cidades, as pessoas não se olham. Sem querer, às vezes escapa um olhar cortaziano pelo reflexo do vidro, mas ele disfarça rapidinho, não foi de propósito.

Haja esforço.

Tudo quanto quero.

December 8, 2009

Escrevo menos do que gostaria e saio mais do que queria. Li, em algum lugar, num momento desses em que consegui não sair, que quanto mais escrava, mais escrevo, pra tentar me libertar. Era da Martha Medeiros. Será que a escrita não pode ser uma liberdade? Eu não escolho a minha circunstância, mas eu escolho as minhas palavras em cada circunstância. Alguns acham que elas trazem sofrimento, barreiras entre seres que podem se comunicar sem elas. Comum-nicar? Comum-ficar? Comum fornicar? Comumfornicar – só assim será sem palavras.

Para toda a bela precariedade, numa segunda à noite, as palavras no msn. Tento guardá-las.

Guardo-as. Belo, belo, tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo – que foi? passou – de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

(Manuel, sempre Manuel)

Até aqui.

December 1, 2009

Quando somos pequenos, passamos horas sentados no sofá da sala à espera dos convidados que chegarão, será, para a festa de aniversário que você sabe que é preparada desde o dia anterior. Você sabe pela presença de tias, pelas mãos de brigadeiro e pelo cheiro de manteiga que fica na casa. Pelo pai mudando a mesa de lugar pra caber mais gente. Tudo vai dar certo, tem gente demais  preparando aquilo.

Quando crescemos, dizemos, ah, não ligo pra festa, qualquer coisa serve. Em parte porque já não tem tanta gente cuidando e pode ser que não venha ninguém, em parte porque já não ligamos mesmo.

Eu adoro fazer festa, porque nasci em uma família com um irmão 10 anos mais velho que adorava chamar os amigos pra fazer o som e pôr as luzes nas minhas festas, desde os meus 4 anos de idade. Acostumei a pensar que festa é pra encontrar os amigos. Agora, acostumo-me a pensar que a vida é para encontrar os amigos.

O encontro é sim uma arte. O encontro consigo mesma então, nem se fale. Aos 27, descubro que é preciso muito tempo pra descobrir que poucas coisas importam. E elas já estavam todas ali. Uma dessas amigas encontradas me deu um peso de papel com a frase: é preciso muito tempo para se tornar jovem. Quando li, eu pensei, é preciso muito tempo para se tornar.

Obrigada a todos que estão sempre aqui. Envelhecer é tudo isso ao mesmo tempo.

Ao correr da máquina.

November 10, 2009

Meu Deus, como o mundo sempre foi vasto e como eu vou morrer um dia. E até morrer vou viver apenas momentos? Não, dai-me mais do que momentos. Não porque momentos sejam poucos, mas porque momentos raros matam de amor pela raridade. Será que eu vos amo, momentos? Responde, a vida que me mata aos poucos: eu vos amo, momentos? Sim? Ou não? Quero que os outros compreendam o que jamais entenderei. Quero que me dêem isto: não a explicação, mas a compreensão. Será que vou ter que viver a vida inteira à espera de que o domingo passe? (…)

Passear pelos campos com uma criancinha-fantasma é estar de mãos dadas com o que se perdeu, e os campos ilimitados com sua beleza não ajudam: as mãos se prendem como garras que não querem se perder. Adiantaria matar a criancinha e ficar livre? Mas o que fariam os grandes campos onde não se teve a previdência de plantar nenhuma flor senão a de um fantasminha cruel? Cruel por ser criancinha e exigente. Ah! sou realista demais: só ando com os meus fantasmas.

(Clarice Lispector, A descoberta do mundo)

A minha condição é tão pequena que o excesso de liberdade me constrange. Seria inútil querer mais. Clarice diz que a condição humana não se cura, mas o medo da condição é curável.

Por saber da mediocridade, criamos horizontes e esperamos que eles sejam descobertos. Quando duas pessoas estão juntas, elas comunicam o que há de mais íntimo: a solidão de saber-se só. Clarice acha que amar é dar a própria solidão ao outro. Nunca havia entendido. Descobrir o que é amor antes dos 30 é mau agouro? Espero que seja só o inferno astral.

Povoada de dúvidas e fantasias, caminho. Deixem-me assim por enquanto.

É a minha condição.