Mais um pouco.
December 30, 2009
Então, é estranho. Tenho essa mania de começar a história já começada, como se fosse íntima. Funciona, pois depois você se sentirá seguro e achará que há intimidade de verdade. Docemente, eu finjo, finjo até que contei o que não esperava contar, como se tivesse sido surpreendida. E dá certo, às vezes. São as falhas que nos unem, não os acertos. Eu sei que você se delicia ao achar que sabe de mim, que me fez revelar um segredo. E deixo. As falhas me interessam, Não as minhas. Eu, eu simplesmente vou, assim, sempre corrida, sempre fugida. Tínhamos um acordo. Falar sobre o futuro seria um erro, nos envergonharíamos de nossa frágil condição. Não. Só dava pra eu me defender. Fingir-me surpresa. E depois sair, Não porque não gostasse de você. Nem porque gostasse. Nem todas as histórias têm enredo. Nem todas as línguas são bem estruturadas. As palavras se ligam por um equívoco de sentido, São a sua condição. Você inventa a corda, eu invento o pescoço.
E depois de toda a condição estabelecida, a gente podia continuar. Assim, Aos poucos. Naquele dia, as gotas de chuva contornavam o guarda-chuva e molhavam a minha bolsa. Não cabiam nós dois, eu disse, mas você achava que cabia. Não cabia. Eu nunca gostei dessas chuvas de verão, que ficam bonitas nos filmes mas fazem a gente carregar desconfortáveis guarda-chuvas na bolsa que era pra estar leve. E elas chegam, assim, nos obrigando. Você me pediu um cigarro e fez algum elogio sobre os meus pés, um pouco antes. Depois, já estávamos na porta do metrô, havíamos subido a Augusta e minha bolsa molhava, porque só as mulheres carregam guarda-chuvas. Só as mulheres carregam muitas coisas, Eu tentava explicar. Acho agora que você pensou que eu iria mesmo pra sua casa, só porque tinha ido até ali. Eu cheguei a demonstrar isso? Não me lembro. Mas se demonstrei era pra você querer, e depois… não sei depois. As mulheres carregam muitas coisas. Só que os malditos guarda-chuvas nunca nos guardam. Nunca.
And the Oscar goes to…
December 23, 2009
Eu não posso encerrar este ano sem escrever um texto sobre o filme Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte. Na época em que todos estavam empolgados com o Anticristo, fui ver este filme brasileiro e tive uma surpresa absurda. Há tempos não via um roteiro brasileiro tão bem feito. Prometi até uma comparação dele com o Anticristo, vi semelhanças e ninguém havia entendido nada. Nem tenho mais vontade de falar do Anticristo comparado a esse filme, mas prometo dizer no fim onde achei que havia uma questão.
Se nada mais der certo reúne personagens que estão em uma situação com a qual nós, moradores de grandes centros urbanos, nos identificamos facilmente. O filme se passa em SP, Baixo Augusta, e os personagens, ao mesmo tempo em que têm de sobreviver, deparam com a liquidez da própria identidade, que parece sempre escapando por entre os dedos. É um filme que impressiona porque consegue dialogar com uma alegoria, os órfãos de uma nação acostumada ao paternalismo, e as identidades etéreas que resistem a uma massificação.
O filme parece uma tentativa de respiro atual, muito muito bonito. Os personagens questionam, cada um de acordo com seu entorno, a ordem social vigente. “Qual é a lógica do pobre quando ele rouba alguém que rouba alguém que tem mais dinheiro que ele? Ele quer algo que ele não tem. Qual é a lógica do rico que rouba o pobre, se ele já tem? (…) A gente é educado pra não roubar, mas a gente não é educado pra não ser roubado.” A fala de Léo (impressionantemente, Cauã Reymond), jornalista ferrado, sem receber a grana de trabalhos feitos já há algum tempo e sem emprego, e o cérebro pensante do grupo, parece indicar o caminho do filme, uma eterna e rasa luta de classes. No entanto, de repente Léo está roubando também – e não o rico, mas alguém mais pobre que ele. Não há clichês, não há maniqueísmos. Diria que só consigo definir o filme por negatividades, a identidade se positivando pela diferença, e acho que esta é a síntese maior da minha geração.
Marcin, um/uma traficante, amiga da namorada de Léo, não tem sua identidade sexual definida no filme. A começar pelo nome, de gênero indefinido, não é Márcia, não é Márcio, é Marcin. Como a atriz é Caroline Abras, vou me referir como ela. A carência traduzida em Marcin, o desejo de estar perto, de ajudar, é fortemente marcado em seu olhar, e ela passa a ser a personagem mais bonita do filme. A falta de identidade sexual definida em um contexto tão indefinido é altamente simbólica. Ana, a namorada de Léo, é anoréxica e tem um filho. Ela é, de longe, a personagem mais sofrida. Não aparece tanto, mas tudo o que é questionado no filme aparece traduzido pro real em seu corpo, anoréxico, que mal se sustenta. Identidade que mal se sustenta. A tentativa não é só de definir um corpo pra geração, pra nação, mas, sobretudo, de constituir um corpo humano que banque essa identidade em meio a uma sociedade que parece ainda extremamente determinista. Léo afirma: “por mais que você ache que existem vários caminhos, não existem”. É um entorno claustrofóbico – e aqui já me lembro do Anticristo -, em que o vazio tem um papel principal como recurso último de uma marca identitária. Vazio do corpo, a negatividade como último suspiro redentor, ou desesperador, da identidade.
A trilha traz, genialmente, Saltimbancos – juntos somos mais fortes – e Bem que se quis – depois de tudo ainda ser feliz-, de Marisa Monte. Todos no mesmo barco, não há o que temer? O entorno racionalista não explica os desejos do sujeito. Não adianta fazer uma pirâmide, como no Anticristo, e pôr no alto seu maior medo. Não adiantam os manuais psiquiátricos, as camas de Procrusto, que querem deixar o sujeito na medida de sua teoria. Qual é o medo de Marcin? De Ana? De Léo? Do taxista? Da mulher do Anticristo? Talvez seja, entre outros, justamente o medo da perda do desejo, de poder expressá-lo, e ficarem limitados a uma mera sobrevivência. Não há síntese, há um eterno descompasso entre o homem e o mundo, o homem e a sua sociedade, e a sua geração. Esta exprime os anseios, mas nunca vai ter palavra que baste, porque nós não nos bastamos. Solidariedade talvez seja o simples desejo de estar perto.
Set list 2009
December 21, 2009
ROAM if you want to Dancing with myself Sugar, oh, honey, honey Girls who wants boys who like boys to be girls who do boys like they’re girls who do girls, like they’re boys Always should be someone you really love Eu ia te chamar enquanto corria a barca, te chamar For a minute there, I lost myself (and no surprises), Let’s dance, put on your red shoes Money for nothing and chicks for free This is ourselves under pressure, cause love’s such an old fashioned word I just don’t know what to do with myself Too drunk to fuck And sooo Sally can wait , she knows is too late El cariño que te tengo no lo puedo negar Fa fa fa fa fa fa fa fa fa better Girl, you’ll be a woman soon I need somebody to love So, please, just take me out Now I’ve had the time of my life No I’ve never felt like this before Billy Jean is not my lover Oh baby pleeeease give a little respect Quem samba na beira do mar é sereia Alvorada, lá no morro, que beleza Last night, she said oh, baby, I feel so down Don’t leave me high don’t leave me dry É do tipo cara valente And we don’t care about the young folks (talking only me and you) Cry, baby, cry, She’s old enough to know better That’s what I’m easy oh, oh, oh, oh I’m easy like sunday morning Back in black Meu peito não é de silicone (sou Pagu indignada no palanque) Strangelove, strange higs and strange lows Rebel rebel, you’ve torn your dress Era você de Aracaju ou do Alabama Menina, amanhã de manhã quando a gente acordar quero te dizer que a felicidade vai Around the world the trip begins with a KISS.
E fechando com Enya pra poder recomeçar.
Este post é pra todo mundo que foi comigo até o chão em 2009. Feliz 2010!
Dissimulação
December 18, 2009
Voltando de metrô ontem, após algumas aulas fora de casa para justamente estar um pouco fora de casa, encostei na parede do último vagão. De propósito, fiquei de frente para as pessoas, que, por sua vez, ficam de frente para a janela e fingem que você não está de frente para elas. Nas grandes cidades, as pessoas não se olham. Sem querer, às vezes escapa um olhar cortaziano pelo reflexo do vidro, mas ele disfarça rapidinho, não foi de propósito.
Haja esforço.
Tudo quanto quero.
December 8, 2009
Escrevo menos do que gostaria e saio mais do que queria. Li, em algum lugar, num momento desses em que consegui não sair, que quanto mais escrava, mais escrevo, pra tentar me libertar. Era da Martha Medeiros. Será que a escrita não pode ser uma liberdade? Eu não escolho a minha circunstância, mas eu escolho as minhas palavras em cada circunstância. Alguns acham que elas trazem sofrimento, barreiras entre seres que podem se comunicar sem elas. Comum-nicar? Comum-ficar? Comum fornicar? Comumfornicar – só assim será sem palavras.
Para toda a bela precariedade, numa segunda à noite, as palavras no msn. Tento guardá-las.
Guardo-as. Belo, belo, tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo – que foi? passou – de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
(Manuel, sempre Manuel)
Até aqui.
December 1, 2009
Quando somos pequenos, passamos horas sentados no sofá da sala à espera dos convidados que chegarão, será, para a festa de aniversário que você sabe que é preparada desde o dia anterior. Você sabe pela presença de tias, pelas mãos de brigadeiro e pelo cheiro de manteiga que fica na casa. Pelo pai mudando a mesa de lugar pra caber mais gente. Tudo vai dar certo, tem gente demais preparando aquilo.
Quando crescemos, dizemos, ah, não ligo pra festa, qualquer coisa serve. Em parte porque já não tem tanta gente cuidando e pode ser que não venha ninguém, em parte porque já não ligamos mesmo.
Eu adoro fazer festa, porque nasci em uma família com um irmão 10 anos mais velho que adorava chamar os amigos pra fazer o som e pôr as luzes nas minhas festas, desde os meus 4 anos de idade. Acostumei a pensar que festa é pra encontrar os amigos. Agora, acostumo-me a pensar que a vida é para encontrar os amigos.
O encontro é sim uma arte. O encontro consigo mesma então, nem se fale. Aos 27, descubro que é preciso muito tempo pra descobrir que poucas coisas importam. E elas já estavam todas ali. Uma dessas amigas encontradas me deu um peso de papel com a frase: é preciso muito tempo para se tornar jovem. Quando li, eu pensei, é preciso muito tempo para se tornar.
Obrigada a todos que estão sempre aqui. Envelhecer é tudo isso ao mesmo tempo.
Ao correr da máquina.
November 10, 2009
Meu Deus, como o mundo sempre foi vasto e como eu vou morrer um dia. E até morrer vou viver apenas momentos? Não, dai-me mais do que momentos. Não porque momentos sejam poucos, mas porque momentos raros matam de amor pela raridade. Será que eu vos amo, momentos? Responde, a vida que me mata aos poucos: eu vos amo, momentos? Sim? Ou não? Quero que os outros compreendam o que jamais entenderei. Quero que me dêem isto: não a explicação, mas a compreensão. Será que vou ter que viver a vida inteira à espera de que o domingo passe? (…)
Passear pelos campos com uma criancinha-fantasma é estar de mãos dadas com o que se perdeu, e os campos ilimitados com sua beleza não ajudam: as mãos se prendem como garras que não querem se perder. Adiantaria matar a criancinha e ficar livre? Mas o que fariam os grandes campos onde não se teve a previdência de plantar nenhuma flor senão a de um fantasminha cruel? Cruel por ser criancinha e exigente. Ah! sou realista demais: só ando com os meus fantasmas.
(Clarice Lispector, A descoberta do mundo)
A minha condição é tão pequena que o excesso de liberdade me constrange. Seria inútil querer mais. Clarice diz que a condição humana não se cura, mas o medo da condição é curável.
Por saber da mediocridade, criamos horizontes e esperamos que eles sejam descobertos. Quando duas pessoas estão juntas, elas comunicam o que há de mais íntimo: a solidão de saber-se só. Clarice acha que amar é dar a própria solidão ao outro. Nunca havia entendido. Descobrir o que é amor antes dos 30 é mau agouro? Espero que seja só o inferno astral.
…
Povoada de dúvidas e fantasias, caminho. Deixem-me assim por enquanto.
É a minha condição.
Reticências
November 7, 2009
Gosto de ler Mia Couto e ver como ele consegue usar um substantivo ou adjetivo de forma derivada e criar um verbo que expressa uma ação que eu nunca havia nomeado. Ele diz, por exemplo, que uma pessoa pode assozinhar-se. Ou então, que quando dois se amam, eles se amilagram. É tão bonito que me faz pensar que às vezes não é que usamos muitas palavras pra dizer o que sentimos, mas na verdade dizemos muito porque estamos em busca da palavra certa. A ausência é o que marca o sentido, a busca. “Tem mais presença em mim o que me falta”, diz Manoel de Barros.
Acho, por isso, muito expressivo o sinal de reticências. Elas expressam a omissão de algo que poderia ser escrito, mas que não o foi. Expressam um ‘muito mais’ .Tem seu lado bom, pois ficamos a imaginar o que estava pra ser dito. Tem seu lado ruim, pois nunca descobriremos. Tacere é “calar”, permanecer em silêncio. Reticere, por sua vez, é calar alguma coisa. Alguma coisa que poderia. Mas, poderia mesmo?
O pior tempo verbal é o futuro do pretérito. Esse tempo das coisas certas mas que não foram…

Enquanto isso, em algum café.
October 23, 2009
Sexta-feira, tenho que esperar o horário do meu rodízio. E aí, um texto novo se fez. Os textos aparecem em mim, e quando nem percebo, estão prontos. É inesperado. Este que aqui segue é da série que agrada aos sensíveis, um elogio ao amor.
A definição de amor de que mais gosto é aquela de Guimarães Rosa, que diz que qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. O único problema da frase é o pronome indefinido. O que seria qualquer amor?
Amor não é qualquer. Ou achar qualquer amor não é uma tarefa tão simples assim. Bem, Guimarães não disse que era simples, mas o pronome pode dar um tom leviano ao tema. Às vezes, temos a impressão de que tivemos uma história de amor, e nos confundimos. É muito difícil saber o quanto podemos aceitar do outro, quais limites pôr, o que eu posso dizer a ele/ a ela sobre mim – porque eu não sei que uso ele/ela fará disso. Se você questiona isso em uma relação no presente, já é um ótimo motivo pra desconfiar da relação que teve. [Como já convivo muito com diplomatas e aspirantes à carreira, já me dou o direito de me autocitar. Escrevi sobre o engano em uns posts abaixo, em um texto chamado As mil faces do amor.]
Amor é um perder-se. Mas, ao contrário do que pode parecer, não é um perder-se ruim. É um perder-se permitido, desejado. Há diferença entre o perder-se por escolha e o perder-se por se achar sem opção. Sim, é verdade que a nossa sociedade reifica os sujeitos, mas também é provável que apenas espelhe as relações pessoais em um modus operandi. Sempre penso que construímos nosso mundo conforme o modelo que concebemos dele. Mesmo por que, o que seria um mundo objetivo, se não as ficções que dele criamos? Isso não deslegitima as relações desiguais e opressivas a que estamos submetidos, mas, da mesma forma, eu estou inserida em um contexto de classe e sei que, na minha classe, média, pequeno burguesa, eu posso saber quando faço uso dessas “armas” externas, prontas para serem engatilhadas: por mim. Muitas vezes, antes de acusar o outro, é preciso perceber que, se caímos na posição de objeto não concedido, e os motivos para tal feito são inúmeros (não aprendemos a ser com teoria), é por estarmos presos a uma posição em que, embora dolorida, ou porque dolorida, é prazerosa. Talvez a maneira, ainda limitada, de começar a se pôr um poder de escolha. Um jeito oposto de começar a perceber a própria posição subjetiva.
Na verdade, somos sujeitos o tempo todo. Sujeitos desejantes de gozo, de prazer, em qualquer possibilidade de relação. Esta é a nossa condição, e com ela temos muitas possibilidades. O amor, no entanto, é um outro tipo de sentir. Esta eu diria que é a questão – com qual sentir você se satisfaz?
O amor é um perder-se, raro, em que você pode abrir mão exatamente de se dizer sujeito, em que você tem de se afirmar, marcar seu espaço, sua identidade, e pode, em vez de dizer, vivenciar isso. Esse é o problema. Amor demora a vir, é privilégio dos maduros, porque também demora a vir o perceber-se sujeito, perceber a sua maneira de sentir e com ela estar em paz. O amor é um descanso na alienação, é um perder-se porque aquele que está comigo sabe qual é o meu melhor. O outro sabe meu bem, bem que, às vezes, nem eu ainda sei. Isso é muito raro, confiar no outro a ponto de relaxar, de saber que se está em boas mãos. A defensiva, justamente porque demoramos a saber de nós e do outro, cria relações neuróticas em que o gozo fica girando em torno de uma masturbação, em vez de troca.
O querer perder-se implica, antes de tudo, um poder perder-se. Poder que é pressuposto de eu me saber sujeito, de eu saber que não é este perder-se que vai desconstituir minha identidade, tão cara, tão demorada a se firmar e em constante mutação. A autonomia é o que permite eu não me apoiar na identidade alheia, eu saber que prossigo ainda que aquele que amo se vá, embora eu não queira – porque aquele é o que me permite descansar.
Amor é um descanso na loucura diária a que estamos submetidos por nós mesmos. Como disse Guimarães, em outra definição, Amor vem de amor. Eu acrescento: amor só vem de amor, por isso, não é qualquer. Não é tanta gente assim que sabe de nós, e da qual nós sabemos, mutuamente. Aliás, arrisco dizer que amor, de verdade, é sempre recíproco – e, por tudo isso, raro. Só um homem nascido em Cordisburgo teria tal definição.

Postagem extraordinária
October 23, 2009
Antes de eu escrever o tal post sobre o Anticristo – que me propus a fazer no fim de semana -, preciso divulgar uma história BIZARRA que aconteceu, com fins ainda mais bizarros.
Tenho alguns alunos que estão prestando o vestibular. Quatro meninas de fora de SP moram em uma pensão na Liberdade, na Tamandaré. Já estavam em casa na sexta passada, por volta da hora do almoço, quando ouviram um barulho de briga na rua, foram à janela e viram 2 rapazes batendo em um mendigo. Bateram até o cara morrer. Era desses mendigos que têm carrinho de mercado no qual guardam todos os seus pertences. Enfim, elas gritaram, chamaram a polícia, mas não teve jeito. Os caras quebraram um pedaço de pau na cabeça do pobre homem, literalmente, e ele morreu no dia seguinte. A ambulância levou 40 min pra chegar, a polícia não deu muita atenção pois era indigente, aquela coisa.
Mas a história, que já era bizzarra o suficiente, teve um fim não sei se pior, mas reflexo do grau que as bizarrias podem atingir. Uma das meninas, a primeira a perceber tudo, desceu pra dar depoimento aos policiais. Estava nervosa, e quando foi entrar em casa pra pegar não sei o quê, torceu o pé. Como a ambulância já tinha demorado pacas em um caso de vida e morte, os policiais ofereceram uma carona pra deixá-la no hospital. Nisso, já havia helicóptero de emissora sobrevoando o local do crime, gente filmando, e quando ela entrou na viatura para pegar a carona para o hospital, filmaram a cena. Já conseguem supor o fim da história? A garota apareceu em um desses programa de Datena da vida como envolvida em tráfico de drogas, com a narração acontecendo enquanto a imagem dela entrando na viatura rola. Metonímia da deturpação diária que sofremos nos noticiários.
Enfim, ela está em dúvida se processa ou não a emissora. Eu quero incentivá-la, uma porque a imagem dela foi usada para difamá-la, outra porque esses programas vendem exatamente o sangue alheio como forma de ter audiência. No mínimo ela deveria exigir toda publicidade do dia como ressarcimento. O bom, se é que há algo bom, nessa história toda é que elas começaram a questionar tudo que a TV, inclusive os telejornais, passa. Se usam uma imagem pra criar uma narrativa (não tão) fantástica, imaginem o que fazem com aquilo que não é passível de ser apurado. Óbvio que elas sabem disso, mas o impacto quando é na própria pele é outro.
Fica aqui a história dela. No próximo volto com cinema, que é mais honesto que telejornais: ao menos é avisado que se está pagando por uma ficção. E, ao mesmo tempo, são mais verdadeiros. Ê laia, viu.
(Acho que foi no Datena mesmo, mas vou confimar; foi na Record ou Bandeirantes.)


