Samba-canção
Posted by Claudia in Uncategorized on November 1, 2011
| Ana Cristina Cesar
Tantos poemas que perdi. |
Você quer ser diplomata?
Posted by Claudia in Uncategorized on October 28, 2011
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O que é o concurso do Instituto Rio Branco? Onde posso obter informações sobre o concurso? Que história é essa de inglês não ser mais obrigatório? Preciso saber falar francês? Quais são os requisitos para passar no concurso? Quanto tempo devo estudar? Preciso ler toda a bibliografia listada no Guia de Estudo? Que matérias devo priorizar nos meus estudos? É possível passar estudando só as apostilas da Funag? Que livros você recomenda que eu estude? Você tem alguma dica para a hora de estudar? Você tem alguma dica para a hora de fazer as provas? Devo fazer um curso preparatório? O que é melhor? Fazer um curso completo ou contratar professores Quais são os cursos preparatórios disponíveis em minha cidade? Que curso você recomenda? Quanto tempo dura o curso do Rio Branco? (PROFA-I) Eu ganharei uma bolsa durante o curso? Há aulas de línguas? Quais são as matérias estudadas? Como assim, “Mestrado em Diplomacia”? Como foi, pra você, estudar no Rio Branco? Você gostou das aulas? É possível ser reprovado? Poderei, durante o Rio Branco ou depois dele, exercer alguma outra E haverá tempo disponível para isso? Durante o curso, há quantos meses de férias por ano? Terei um estágio no exterior ao fim do Rio Branco? Por quanto tempo? E O que “faz” um diplomata? Qual a diferença entre embaixada e consulado? O diplomata trabalha nos dois? Como é o dia a dia de um diplomata? Tá bom, como é o dia-a-dia de um diplomata quando no Brasil? E no exterior? Qual é o “perfil” para ser diplomata? Quanto tempo se passa no exterior? Se eu não quiser, serei obrigado a me mudar para um determinado país? Como é, então, que escolho os países onde vou servir? Como é a hierarquia da carreira? Se virar diplomata, vou chegar a ser embaixador? Quando? Quanto ganha um diplomata? Quem é você? Quando ingressamos no Rio Branco, o Itamaraty nos providencia O MRE fornece alguma passagem aérea para minha cidade natal, Posso usar tatuagem? [autoria (in)felizmente desconhecida]
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Amigas
Posted by Claudia in Uncategorized on October 2, 2011
Quero falar sobre as mulheres. Não de todas, mas de algumas que tenho escutado com certa frequência e com as quais compartilho muitas coisas. Na verdade, acho que esse texto também pode ser útil para alguns homens.
Antes que alguém se identifique, aviso que é um apanhado geral sobre casos de várias amigas, situações que aparecem e lembram igualmente situações pelas quais eu também já passei. É muito impressionante a quantidade de amigas que eu escuto se questionando se estão no caminho “certo” sobre o ser mulher. Amigas já maduras (até pelo tipo de questionamento) que deram um passo além, que estão longe de um clichê de feminilidade e que não precisam demonstrá-la mantendo uma constante de vestimentas ditas femininas ou interesses e comportamentos considerados como tais. Essas mulheres apresentam, da mesma forma, fragilidade, porque isso não é privilégio de algum gênero. No entanto, parece que quando não relacionada a certos modelos, a fragilidade - que fica associada à feminilidade – não é reconhecida por alguns homens.
Claro que a questão nunca vem só de um lado. O problema parece ser que é mais comum, de alguma forma, os homens comprarem um discurso de que eles devem ser potentes e seguros o tempo todo, e que só há espaço para um dos dois ser assim. Se ele demonstrar fragilidade, ele mesmo vai-se considerar menos homem. Nisso, quando aparece alguma mulher que lhe desperta o desejo – justamente porque a inteligência também é um afrodisíaco -, mas com o tempo ele percebe que ela não é necessariamente submissa, começa uma sensação de mal-estar, como se aquilo pudesse tirar-lhe o lugar. E aí se inicia uma confusão sem fim, porque é comum que a mulher, ao perceber que o cara se coloca como dono da verdade, comece justamente a tentar deixar-lhe impotente, como se dissesse, escuta, você quer enganar quem? E o problema é que, em vez de ela (como seres mais evoluídos que somos, hehe) perceber que tal ação masculina na verdade já é resposta a inseguranças que justamente ele não está a fim de ver – e agir de forma a lidar de uma maneira mais natural com a falta e a impotência que cada um de nós carrega -, termina por se sentir também diminuída, a querer escancarar todas as faltas do companheiro. Muitas vezes tentamos nos assemelhar aos homens nos seus piores defeitos, e tornamo-nos potentes acusando a impotência alheia. Vira uma briga de poder sem fim, como se de fato houvesse um objeto em jogo.
É muito muito difícil se relacionar. É muito difícil abrir mão de uma fantasia de consistência e dar ao outro justamente aquilo que me falta: um pouco de amor, um pouco de carinho, um pouco de respeito e compreensão de que as coisas são faltantes dos dois lados. Dói em mim ver amigas que são lindas, são inteligentes e não estão no senso comum de buscar desesperadamente um casamento ou uma relação que funcione como um tapa-buraco para a castração, acharem-se feias, burras e questionarem-se se deveriam ser diferentes (num sentido ruim), se não deveriam logo se adaptarem àquilo que é esperado pela sociedade. Felizmente, por mais que o desejo de amor e aceitação seja muito forte em cada uma de nós, ele não é suficiente para passar por cima de uma ética e de uma consciência própria que nos faz seguir em frente do jeito que somos: SINGULARES. Não dá pra voltar atrás. E isso é entender, finalmente, que a outra não é mais mulher que eu porque aquele cara babaca disse que ela, sim, é mulher.
Na verdade, a questão pode ser invertida: será que ele só se sente homem ao lado de mulheres com certos traços fixos? Principalmente traços que não ameacem o seu posto de senhor do saber. Ou ele mesmo se mantém em alguns traços fixos? Ouvi um caso engraçado recentemente de dois homens na Livraria Cultura, conversando sobre uma matéria que afirmava que 90% dos homens casados trairiam sua esposa com a Ellen Roche. Um deles disse: “poxa, imagina que a Ellen Roche chegue em você, você vai virar e falar – então, não vai dar, sou casado… claro que não!” Tudo bem, eu concordo que a Ellen Roche é de fato um caso raro, a questão não é um julgamento moral a respeito de que decisão ele tomaria. O fato é que é impressionante o tanto de homens que realmente acreditam que um dia a Ellen Roche chegaria até eles com um convite do tipo! E como isso vira desculpa pra não encarar uma relação – não encarar a si. Muitos homens acham que estar com uma mulher é abrir mão de todas as outras, como se todas as outras estivessem realmente loucas por eles.
Enfim, esse texto é só um desabafo de carinho pra essas minhas amigas que em algum momento perdem a fé no seu próprio trajeto. E pra dizer que uma relação pode não ser uma competição. O relacionamento vem quando você confia, sem medo, a sua falta ao outro, e você tampouco recebe a do seu companheiro como ameaça, mas como confiança. Quando o outro deixa de ser o culpado por aquilo que você não tem (seja desejo eterno, potência, etc etc), mas o confidente daquilo que lhe falta. Quando você pode respirar aliviada por sentir o amor como alguma forma de suplência às loucuras do dia a dia.
Amigas, por favor, não ousem mudar. Vocês não são menos mulheres por terem convivido com alguns homens que infelizmente se julgam menos homens. Homens que também acreditam que exista o homem ideal, o pai da horda. Provavelmente, eles não tiveram uma mãe muito bacana (risos), mas, enfim, falar sobre o sofrimento das mães daria outro texto. E não se igualem nos defeitos, há laços melhores a serem feitos. Vocês são motivos da minha admiração e são muito companheiras nessa árdua jornada em pleno século XXI.
Não percam a fé de serem especiais com a sua singularidade. Amor vem de amor, já dizia o poeta.
Me diz o que você achou?
Posted by Claudia in Uncategorized on August 18, 2011
Vocês se lembram do mito de Orfeu e Eurídice? Bem resumidamente: eles se casam, Eurídice morre após uma perseguição. Orfeu, desesperado, decide descer ao mundo dos mortos para vê-la, vale-se de sua lira para lá entrar, faz um belo discurso e consegue uma chance de trazê-la dos infernos. Permitem, inusualmente, que ele a traga de volta, com uma condição: ele não podia se virar pra olhar pra ela antes que chegassem à superfície. E assim vão, Orfeu segue andando na frente, Eurídice atrás, ambos a caminho do mundo dos vivos. Mas eis que, depois de muito andar, já quase sob a luz do sol, Orfeu se vira pra dar aquela olhadinha e conferir se Eurídice está ali mesmo e… pluft! : ela começa a ser arrebatada num turbilhão, eles estendem os braços tentando um último abraço, mas só ar é o que retêm. Ele a perde para sempre.
A história do músico trácio (que não termina onde eu parei) é usada como analogia para muitas categorias, depende do interesse. Colocam-no como filósofo em busca de conhecimento, músico que personifica a música e o ritmo das coisas, vidente fundador de ritos dionisíacos, astrólogo e até missionário em terras bárbaras, com uma, digamos, função civilizatória. O momento em que tudo vai pelos ares, no entanto, é o que me chama a atenção. A hora em que Orfeu se vira para, discretamente, conferir que Eurídice estivesse ali – e nisso tudo se perde.
Cogito, ergo sum. A dúvida é meu tema aqui. Nesse mito, quando Orfeu se vira pra dizer “você está aí, ‘né’?”, é nesse ‘né’ que ele perde Eurídice. O problema não é a dúvida – impossível avançar sem ela. O problema é a busca da confirmação do pensar para poder prosseguir, confirmação que, na sua ausência, deixa paralisado. Esse “né” seria a busca da segurança, um ‘olha, eu não estou sozinho, estou?’, literalmente. É muito difícil assumir que, em última instância, nada é sem risco. Estamos apresentando sem ensaio, desenhando sem esboço, como naquele trecho de A insustentável leveza do ser.
De Descartes a Lacan. A cena do questionamento de Orfeu trouxe-me ainda outra imagem: a do analisando no divã, buscando a confirmação do analista para os seus cogitos. No silêncio do analista, que muita gente que já viu algum filme do Woody Allen diz ser o silêncio mais bem pago do universo, reside justamente a angústia de não obter uma confirmação, de não ter um “curtir” pro post colocado. É o silêncio que, de certa forma, lhe diz, olha, talvez agora você esteja sozinho, sim. E é assim que você vai se ligar aos outros, caso interesse.
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De Lacan a mim: tenho a palavra silêncio tatuada, em farsi, e muita gente acha que esse silêncio é um imperativo. Eu digo, não, é substantivo. Nunca tinha pensado, porém, que, nessa frase, substantivo vira um predicativo: aquele que evidencia a substância, a essência.
Londres, ainda e ainda.
Posted by Claudia in Uncategorized on August 16, 2011
O caos da ordem
BOAVENTURA DE SOUSA SANTO
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Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma “criminalidade pura e simples”, como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de “Para uma Revolução Democrática da Justiça” (Cortez, 2007).
Folha de S.Paulo, 16/08
Ainda, Londres
Posted by Claudia in Uncategorized on August 16, 2011
VLADIMIR SAFATLE ( Folha de S.Paulo, 16/08)
Colapso moral
Aqueles que se veem como excluídos da sociedade não têm razão alguma para obedecer às suas normas.
Eis uma colocação trivial que qualquer habitante de metrópoles brasileiras aceitaria. Conhecemos bem tal situação social onde a exclusão e a falta de perspectiva gera a descrença (no melhor cenário) ou a violência (no pior) contra o império das normas sociais.
Muitos gostariam de chamar isso de “sociologismo vulgar”, como se fosse questão de afirmar que onde há pauperização sempre haverá crime.
Talvez seja o caso de simplesmente dizer que a pauperização e o sentimento de ter sido deixado de lado pelo Estado gera, de maneira forte, a desagregação do laço social.
Quando não há nada que sirva de contrapeso a tal processo, é fácil começar a ver carros queimados, lojas quebradas e outros atos de vandalismo.
Nesse sentido, há algo de profundamente cômico em ouvir o premiê britânico, David Cameron, afirmar que a Inglaterra está vivendo um “colapso moral” e que devemos colocar os confrontos em Londres e em outras cidades na conta da ausência de valores como “espírito de equipe, decência, dever e disciplina”.
Sim, as escolas e as famílias não ensinam mais esses grandes valores, mas, segundo o primeiro-ministro, em seu papel de último esteio moral da ilha, “desencorajam o trabalho” e fornecem “direitos sem responsabilidade”. Por muito pouco, não fomos brindados com a ideia inovadora de que as altas taxas de desemprego eram fruto da “preguiça”.
Alguém deveria ter dito a Cameron que ele não é exatamente um bom enunciador contra o colapso moral britânico, ainda mais depois de um de seus principais assessores ser pego envolvido no escândalo que expôs as relações incestuosas entre a política britânica e o magnata da mídia Rupert Murdoch.
Da mesma forma, quando seu governo destrói todo o resto de sistema público de educação e de assistência social após ter pago (com o beneplácito de seu partido) a conta de bancos responsáveis pela crise de 2008, há de se perguntar se o colapso moral vem da City ou de Tottenham.
Pelo menos Cameron mostrou o que o pensamento conservador pode nos oferecer hoje: ladainhas morais em vez de ações enérgicas contra os verdadeiros arruaceiros, ou seja, esses que operam no sistema financeiro internacional.
Enquanto isso não ocorrer, jovens roubando lojas de iPads e tênis continuarão dizendo: não aceitaremos estar fora do universo de consumo e sucesso individual que vocês mesmos inventaram. Nós entraremos nele, nem que seja saqueando.
Por isso, antes de cobrar responsabilidades de setores desfavorecidos da população, Cameron deve parar de tentar escapar de suas próprias.
VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.
Melancholia, por Safatle
Posted by Claudia in Uncategorized on August 2, 2011
| Folha, hoje.
VLADIMIR SAFATLE Melancholia Poucos são os cineastas realmente necessários para nossa época. Lars Von Trier é certamente um deles. Talvez alguns de seus filmes estejam entre as melhores reflexões contemporâneas sobre moralidade e seus impasses. |
Procrastinação
Posted by Claudia in Uncategorized on August 1, 2011
Acostumada a passar o tempo depois do almoço, já que já tinha demorado pra me levantar e sair de casa, já que já tinha tomado banho e o cabelo ainda secava, tinha minha tarde de sol. Almoçávamos e, sentados em algum banco de uma praça, ríamos e desdobrávamos filosofias sobre as pombas ou sobre as pessoas que passavam. Olha o shortinho daquele cara levando um pitbull pra passear, Olha aquela pomba tentando chamar a outra que se isolou do grupo, Olha, eu já estou com saudades de você.
Demora para tomarmos alguma decisão realmente importante na vida. Desejamos tanto uma oportunidade e, na hora de validar, não conseguimos fazer outra coisa senão ficar arrumando o salão pra festa, por horas e horas. Há várias maneiras de procrastinar, seja saindo todos os dias, seja trabalhando todas as horas, seja no radicalismo, seja na inércia, não importa. Arrependimentos, então, podem ser muito úteis para gerar a inércia da lamentação por tempo indeterminado.
Costumamos dizer que estamos “procrastinando o dia”. Demorou pra eu perceber que o que procrastinamos, cada vez que evitamos uma decisão, não é a vida. E demorou pra eu perceber que todas essas táticas são banais, embora funcionais. O saber às vezes vira uma maldição. A maldição da múmia, tropeçando na própria faixa. Mas, as coisas mudam. E, pra minha sorte, o som ainda está rolando. Let’s dance.
19/ 07/ 2011
Posted by Claudia in Uncategorized on July 19, 2011
O SEU SANTO NOME
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade
Um amigo leve, por Danuza Leão
Posted by Claudia in Uncategorized on May 30, 2011
Um amigo leve
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Não espere considerações sobre a complexidade dos sentimentos, mas ninguém será melhor companhia |
É SEMPRE ASSIM: com tanto para fazer e sem tempo para nada, a gente acaba negligenciando um monte de coisas, entre elas nossos afetos.
E como os sentimentos não sobrevivem sem uma certa atenção, um dia se começa a achar que o coração não consegue -e nunca mais vai conseguir- gostar, ou ao menos sofrer por alguém.
Mas o tempo passa, aquele amigo que a gente via o tempo todo viaja e um belo dia você sente saudades dele. Preste atenção: esse fato é mais merecedor de uma comemoração do que qualquer data querida. Ter saudades de um amigo, há quanto tempo isso não acontecia? Ah, que coisa boa.
Uma simples saudade faz com que você se sinta viva, mesmo que sejam saudades apenas de um amigo -como se um amigo pudesse ser chamado de “apenas”. Mas tantas vezes você amou apaixonadamente, e quando ele fez uma viagem sentiu um alívio, até para descansar de tanta paixão e poder se encher de cremes, sem ele por perto para reclamar? E tem melhor do que de vez em quando ter aquela cama enorme só para você, e até dormir com a televisão ligada?
Ter um amigo é coisa muito boa, e sendo um que não te patrulha, não te inveja, não te analisa nem discute a relação, é bom demais -e raro. Um amigo tão bom que te aceita do jeito que você é, que não faz perguntas indiscretas, que te entende e está por ali sem ser, jamais, invasivo. Você sabe de certas particularidades dele, ele das suas, mas delas não falam, só quando é necessário. E com pouca intimidade.
O excesso de intimidade pode ser fatal, mesmo entre mãe e filho, marido e mulher. A intimidade física não é nada, perto da dos pensamentos e sentimentos. Pode ser pior do que ouvir a pergunta “em que você está pensando?”. Pode sim: é quando alguém tenta analisar a razão pela qual você disse ou fez determinada coisa num determinado dia, pretendendo, assim, conhecer você melhor do que você mesma se conhece.
Um distanciamento saudável é indispensável às boas relações humanas.
Qual a primeira qualidade que deve ter um amigo? Bem, além das clássicas, como lealdade, fidelidade, discrição sobre as intimidades que ouviu nas horas do aperto, disponibilidade para escutar as histórias, bom humor, e mais o quê? Leveza. Ter um amigo leve é uma benção dos céus.
Não espere dele considerações sobre a vida e a complexidade dos sentimentos humanos, mas ninguém será melhor companhia para jantar, viajar, conviver, do que um amigo leve. Já pensou, passar três dias seguidos com um amigo profundo? Se estiverem tomando banho de mar, ele pode se lembrar do tempo em que era criança, falar da relação que tinha com a mãe e o pai, e daí para cair no divã é um pulo; eles gostam de falar como são tolos os banqueiros e políticos, que só pensam em dinheiro e poder e não compreendem que a vida real etc. etc., quanta profundidade.
Com essa mania, quando estão numa rede em frente à praia, comendo um camarãozinho frito e tomando uma cerveja estupidamente gelada, se esquecem de que nessa hora o bom é não pensar em nada.
É isso que faz um amigo leve; ele não diz nada, apenas usufrui a vida, e quem tiver a sorte de estar perto dele vai ter momentos de grande felicidade – ou pelo menos quase isso.
Com um amigo assim, até a vida fica mais leve.
Folha de S.Paulo, 29/05/2011

